
Oakland fica a uns 50km de San Francisco, cruzando a Bay Bridge. Dizem que é uma cidade violenta. Logo que você cruza a ponte, dá de cara com um cartaz gigantesco: Hiring Police Officers, convidando os jovens a entrar para a força policial por um salário inicial de US$ 69.000. Se não erro na conta, são quase R$ 11.000 por mês. Nem assim funciona. A cidade está cheia de bolsões de violência, onde nem a polícia entra.
Cerca de 10 minutos depois da ponte, você chega a dois estádios: o Oracle e o McAfee Coliseum, este último do time de baseball Oakland Athletics. Foi aqui que aconteceu o 8º show da nova turnê do The Police.
Dia sem uma nuvem no céu. Ingressos esgotados, o público de 35 a 50 anos comportada e lentamente vai lotando o estádio. Às 18:30 pontualmente, o FictionPlane (quem?) abre o show. Em seguida, o ótimo The Fratellis. Mas ninguém quer ver essa gente. Todo mundo sentadinho, afinal é show de velho, esperando mais uma hora pela atração principal.
Às 22:00hs (que aqui é pouco depois do pôr-do-sol), apagam-se os refletores do estádio. Entrando pelo fundo do palco, Stewart Copeland faz soar o enorme gongo que sempre esteve atrás de sua bateria. Andy Summers entra logo depois e, finalmente, Sting. “It’s good to be in the Bay Area again”. A galera adora. Soam os primeiros acordes de Message in a Bottle. O estádio vem abaixo. Seguem-se 118 minutos de um show de arrepiar. Um hit atrás do outro. Está tudo lá. Todas as músicas que fizeram sucesso nos 5 álbuns da banda. Nenhum lado B, apenas um ou outro arranjo diferente, mas com a mesma alma original.
Não se engane. O show pode ser uma atitude oportunista para ganhar dinheiro em cima da fama da banda. Mas é uma superprodução, os três estão inteiros e o show vale cada centavo.
Aí chegou a hora de embora.

Para vir de San Francisco para Oakland, vim de taxi, mas para voltar, ou esperava 2 horas para conseguir algum taxi vazio, ou ia de BART, o fura-fila local. BART é um trem de subúrbio, que passa exatamente pela região perigosa que falei acima. No hotel tinham me recomendado não utilizá-lo na área de Oakland, mas como uma multidão de gente voltava por ele, decidi arriscar.
Aconteceu de uma hora para outra.
Uma hora atrás, eu estava no meio de aproximadamente 30 mil pessoas saindo do show. Boa parte dessa gente, pegou a rampa do BART. Fui seguindo o fluxo. A multidão entrou no trem e eu imaginei que iam todos de volta para San Francisco.
Acontece que o trem já chegou lotado com gente de outras cidades, já que Oakland é apenas uma das cidades dormitório de San Francisco. O BART cobre vários bairros através de diversas linhas e dezenas de estações, tudo muito mal sinalizado. Quando percebi, o público bacana do show já havia deixado o vagão em alguma estação para trocar para o trem que levava para San Francisco. Como assim? Tinha que trocar de trem? Tinha. Mas no mapa era direto. A essa hora não é mais direto. Eu não percebi e fiquei com os moradores da região, num trem que não ia para San Francisco.
Perguntei para um local como eu deveria fazer. Parecia simples:
- Você desce na proxima estação, volta para a estação Macartur e pega o trem vermelho para San Francisco.
Isso às 23:30, num subúrbio que não consegue contratar policiais nem pagando 70 mil dólares por ano.
Fiz o que o cara disse. Agora no contra-fluxo, fui num trem vazio e quando cheguei a Macartur, o trem para San Francisco tinha acabado de sair.
Ok, então vejamos: agora estou eu, sozinho, a meia noite, numa estação de subúrbio violento, sem um único policial em volta. Beleza.
Sento no banco para esperar o próximo trem. O painel luminoso informa que será uma espera de 20 minutos e será o último trem do dia para San Francisco. Olho para fora da estação atrás de um taxi, mas as ruas estão vazias. Os semáforos vermelhos estão piscando, desligados.
Continuo olhando para o painel luminoso. Agora ele dá mensagens genéricas. A que mais se repete é: “Vamos fazer o BART mais seguro. Fique sempre atento e denuncie atitudes suspeitas”.
Como é que eu vim mesmo para aqui?