
Essa é uma palestra de geeks. Geeks, com letra maiúscula. Eu faço meus programinhas, mas os caras que estão à minha volta dão outra dimensão à palavra “nerd”. Como estou com essa mania, do mesmo jeito que fiz com os mendigos, vou catalogar meus companheiros convencionais. Na WWDC há vários tipos de nerds. O primeiro e o que mais tem, são aqueles pós-adolescentes ainda com a cara cheia de espinhas. Um tipo desinteressante, geralmente solitário. Depois, em quantidade, vêm os nerds descolados. Roupas da moda, sandália de dedo, cabelos despenteados e camisetas engajadas. Qualquer referência ao Google é super hype. Esses dois tipos completam 80% da população local. Aí tem os mexicanos. Camisas listradas, andam sempre em trios e estão geralmente perdidos. Tem também os especialistas em IT. Está na cara que conhecem menos do que eu de qualquer assunto discutido aqui. São como os mexicanos, só que falam inglês. Usam roupas sociais, calças de tergal, telefones celulares antigos e sapatos de couro. Finalmente meu tipo preferido: os Wozniacs, em homenagem ao antigo parceiro do Steve Jobs. São gordos, velhos, cabeludos, desajeitados e bem-humorados. São praticamente um ativo da Apple. Centenas deles.
Então estou eu, instalando o Leopard, com um descolado de um lado e um Wozniac do outro. Eles falam programês com uma desenvoltura que tenho dificuldade em acompanhar. O Wozniac afirma que tem um “math background”. Escreve algoritmos há mais de 30 anos. O descolado trabalhou 11 anos na Microsoft mas nunca se adaptou (?). Tem um brinco na parte de dentro da orelha. Estamos conversando com certa fluência, já que ser brasileiro é sempre credencial pitoresca. À certa altura, eu digo “vocês repararam que aumentaram a largura da sombra das janelas no Leopard”. Aí me dou conta de como esta é uma observação de um diretor de arte e não de um programador. Eles olham para mim com cara de “Yeah…whatever…”.
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Enfim, ainda não achei minha turma, a dos diretores-de-arte-metidos-a-programadores. Mas está divertido. Principalmente porque não tenho nada a perder. Por exemplo, Scott Forstall é o VP de Software do iPhone. O cara que o próprio Steve jobs pediu para falar sobre o iPhone. Quando terminou sua apresentação, fui até ele e dei um cartão do GolfXpress. Expliquei que o GXP é o “leading golf scoring application for OS X”, com mais de 15.000 downloads e que eu queria portar o programa para o iPhone, afinal “the golfers will like to keep their scores at the iPhone”. Sei lá o que ele achou. Desconfio que ele não joga golfe. Um descolado.
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Hoje não consegui sair do Moscone Center nem um minuto. O dia inteiro de palestras. Não vou falar do conteúdo de cada uma. Não é interessante para quem não gosta do assunto. Vou falar das comidas. Ou melhor. Da comida. Cookie. Funciona assim: termina a sessão, você sai e come um cookie. Entra para outra apresentação? Cookie. Sai do banheiro? Cookie. E assim vai. E eles comem muitos, sem nenhum constrangimento. Alias, se você leu que os americanos estão combatendo sua epidemia de obesidade, esqueça. Não é verdade. Eles não estão nem aí. Ontem o sanduíche do dia no jantar do hotel era: croissant de omelete com bacon. Sabe quanto colesterol tem isso?
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O assunto do dia foi mesmo o keynote de Steve Jobs. Os desenvolvedores esperavam um SDK, um kit de desenvolvimento. Com sorte, até um pré-lançamento do iPhone. Nada disso. Nem SDK (quer programar para o iPhone? crie um web application e rode no Safari), nem iPhone com desconto. Resultado: as ações, em Wallstreet, caíram de US$ 124 para US$ 120. E por aqui, saíram todos com cara de fim de festa, bem hoje que a festa está apenas começando. Aceita um cookie?